

Lavras (MG) – Enquanto Minas Gerais ultrapassa 52 mil casos prováveis de dengue em 2026, outra categoria de enfermidades avança silenciosamente pelo país. Doenças como hanseníase, doença de Chagas e leishmaniose – que muitos acreditavam extintas – continuam afetando milhares de brasileiros, impulsionadas pela pobreza, diagnóstico tardio e invisibilidade social.
É nesse cenário que a Universidade Federal de Lavras (UFLA) sedia entre os dias 19 e 23 de maio o VI Simpósio Brasileiro de Doenças Negligenciadas e o II Simpósio Mundial sobre o tema, reunindo cerca de 430 inscritos e aproximadamente 80 palestrantes do Brasil e do exterior. Entre as instituições participantes, a Sociedade Brasileira de Hansenologia (SBH) tem papel de destaque, representada por seu presidente, o professor titular da Dermatologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, Marco Andrey Cipriani Frade.
“Estamos perdendo expertise diagnóstica ano após ano”
Em entrevista durante o evento, o presidente da SBH fez um alerta contundente sobre a situação da hanseníase no Brasil. Apesar de curável e com tratamento gratuito disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), a doença ainda representa um desafio significativo para a saúde pública nacional.
“Estamos perdendo expertise diagnóstica ano após ano. As escolas de saúde não ensinam adequadamente sobre o agravo, a hansenologia deixou de ser especialidade em 1998 e a formação de especialistas é escassa no país”, afirmou Marco Andrey.
O pesquisador explicou que o foco excessivo nas lesões de pele tem feito com que muitos casos sejam identificados tardiamente, quando o paciente já apresenta danos neurológicos irreversíveis.
“Hoje, quando realizamos campanhas de busca ativa, cerca de 70% dos diagnósticos são de pacientes com lesões mínimas na pele, identificados apenas após um exame neurológico bem feito. Apenas 30% apresentam lesões clássicas”, detalhou.
Segundo ele, muitos pacientes convivem por anos com dores nos nervos, formigamentos, dormências e perda de sensibilidade sem receber o diagnóstico correto. “As consequências são pacientes que sofrem por cinco a dez anos com sintomas neurológicos até que a lesão cutânea apareça, muitas vezes já com comprometimentos sensitivos e motores importantes”, destacou.
Dados preocupantes em Minas Gerais
Os números justificam a preocupação da SBH. Entre 2020 e 2025, Minas Gerais registrou 5.570 novos casos de hanseníase, segundo dados do Boletim Epidemiológico Estadual da Hanseníase 2026. O próprio estado reconhece a existência de bolsões de transmissão ativa da doença.
“Hanseníase está nos registros bíblicos e ainda é um problema”, resumiu a coordenadora do simpósio, professora Dra. Joziana Barçante, docente do curso de Medicina da UFLA.
O estigma que persiste após a cura
O presidente da SBH não é o único a levantar a bandeira do enfrentamento à hanseníase. Durante o simpósio, pacientes e pessoas curadas dividem espaço com pesquisadores, trazendo uma perspectiva que raramente aparece nos artigos científicos.
Paulo Rodrigues, de Teresina (PI), curado da hanseníase, relatou que esperou três anos até receber o diagnóstico correto. “Eu vi as manchas no meu corpo, procurei atendimento, fiz tudo corretamente. Mas o médico não pensou em hanseníase, mesmo vivendo em uma região hiperendêmica”, contou.
O atraso trouxe consequências permanentes. “Se eu tivesse encontrado um profissional preparado para suspeitar da doença, talvez não tivesse hoje as sequelas e a deficiência que carrego. Isso é um retrato claro da negligência.”
Hoje integrante do Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas, Paulo afirma que o impacto emocional da doença muitas vezes continua mesmo após a cura medicamentosa. “O estigma dói. A discriminação fere. Existem feridas emocionais que talvez levemos a vida inteira para curar.”
Ciência que vai onde o povo está
O simpósio coordenado pela professora Joziana Barçante conta com apoio da CAPES, CNPq e FAPEMIG, além do suporte operacional e logístico da FUNDECC (Fundação de Desenvolvimento Científico e Cultural). A programação inclui representantes da Fiocruz, Instituto Butantan, Médicos Sem Fronteiras e pesquisadores da África, Colômbia e do Instituto de Medicina Tropical de Londres.
Mas, para a organizadora, o objetivo vai muito além da discussão acadêmica. “A ciência tem que ir onde o povo está”, resume.
Por isso, além das atividades dentro da universidade, o simpósio também promove ações abertas na praça pública. Em 2024, mais de mil pessoas participaram das atividades abertas de ciência promovidas pelo evento.
“Quando a gente está lá na praça, é outra coisa”, diz a pesquisadora. O lema do evento traduz essa preocupação social: “Sem deixar ninguém para trás.”
Mobilização contínua
Para Marco Andrey, enfrentar a hanseníase exige investimento em formação médica e fortalecimento da atenção primária – uma mensagem que a Sociedade Brasileira de Hansenologia tem levado a eventos científicos em todo o país.
“O simpósio da UFLA se consolidou como uma referência nacional nas discussões sobre doenças negligenciadas”, avalia o biólogo e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Andrey José de Andrade, que acompanha o evento desde as primeiras edições. “Mais do que produzir pesquisa, sempre houve uma preocupação muito grande com a formação de pessoas e com a educação em saúde.”
Com a participação ativa da SBH e de especialistas de todo o mundo, o VI Simpósio Brasileiro de Doenças Negligenciadas reforça um alerta necessário: essas enfermidades continuam crescendo silenciosamente – sustentadas pela desigualdade, pelo estigma e pela invisibilidade social.
Serviço: O VI Simpósio Brasileiro de Doenças Negligenciadas e II Simpósio Mundial ocorre até 23 de maio no Salão de Convenções da UFLA, em Lavras (MG), com atividades abertas ao público na praça central da cidade.
Para mais informações acesse: https://fundecc.org.br/doencas-que-muitos-acreditavam-extintas-ainda-avancam-silenciosamente-no-brasil/
Com informações da FUNDECC e da organização do evento
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