
Uma doença tratável e curável está consumindo bilhões de reais dos cofres públicos em benefícios previdenciários. Estudo publicado na revista científica Frontiers in Public Health analisou 119.175 benefícios relacionados à hanseníase concedidos pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) entre 2000 e 2019 e calculou um gasto acumulado de US$ 924,6 milhões — cerca de R$ 4,3 bilhões em valores de dezembro de 2019 e aproximadamente R$ 5,2 bilhões atualizados para 2025.
Os números revelam uma dimensão pouco discutida da hanseníase: além do impacto humano provocado pelo diagnóstico tardio no Brasil e pelas sequelas físicas, a doença representa uma carga econômica expressiva para o país. Somente em 2019, os benefícios no Brasil chegaram a aproximadamente R$ 3,7 bilhões, ou US$ 90,8 milhões — mais de 60 vezes o valor desembolsado em 2000.
O trabalho, intitulado Economic cost of Hansen’s disease: an overview of social security expenditures, foi realizado por pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e Faculdade de Economia e Administração de Ribeirão Preto, ambas da USP.
“Trata-se de uma doença tratada pelo SUS e curável, sendo que o diagnóstico precoce pode evitar, reduzir ou reverter sequelas. O estudo mostra o país arca com um custo elevado humano e social evitável”, observa o hansenologista e presidente da Sociedade Brasileira de Hansenologia (SBH), Marco Andrey Cipriani Frade, doente da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP.
Do total de 119.175 benefícios concedidos, 30.414 (25,5%) eram de caráter permanente, como sequelas irreversíveis e deficiências.
Para a SBH, os dados reforçam a importância de atuar antes que a doença tire pais do mercado de trabalho e crianças do trabalho. O estudo ressalta que as estratégias de controle da hanseníase — especialmente profilaxia, diagnóstico precoce e cuidado adequado — têm potencial para reduzir a demanda de longo prazo por recursos da Previdência Social.
Quase três homens para cada mulher
Um dos achados mais expressivos está na diferença de concessão de benefícios entre homens e mulheres. Dos 119.175 benefícios analisados, 87.198 foram concedidos a homens e 31.971 a mulheres – cerca de três homens para cada mulher. “Por que não houve diferença significativa entre os sexos na idade de entrada no sistema previdenciário - homens e mulheres entraram com os pedidos 45 e 55 anos – mas houve diferença significativa na concessão de benefícios?”, questiona Cipriani Frade.
Os autores – Marco Andrey Cipriani Frade, Filipe Rocha Lima, Claudia Passador e José Marcelo Castro – apontam como provável explicação as desigualdades estruturais do mercado de trabalho brasileiro, como maior informalidade e menores salários para as mulheres. “Os números expõem uma dimensão do preconceito e das desigualdades sociais que ultrapassam a doença em si”, comenta o presidente da SBH.
Desigualdades na distribuição territorial
O estudo também suscita um outro questionamento: até que ponto o local onde uma pessoa adoece e o tipo de proteção econômica ao qual ela consegue acessar influenciam de maneira distinta sua trajetória diante da doença. Os sete estados que registraram a maior participação média no total de novos casos entre 2000 e 2019 — Pará, Maranhão, Mato Grosso, Pernambuco, Bahia, Ceará e Goiás — concentraram 55,7% dos novos casos, mas responderam por apenas 47,8% dos benefícios concedidos. Em contraste, os estados do Sudeste, especialmente São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, concentraram 21,8% dos benefícios, embora representassem 24,8% dos novos casos. Esses resultados sugerem a existência de desigualdades territoriais no acesso à proteção social, indicando que a distribuição dos benefícios não acompanha, necessariamente, a distribuição da ocorrência da doença.
Uma conta que poderia ser evitada
O estudo não calcula o custo total da hanseníase para o Brasil. Os pesquisadores deixam claro que a análise considerou apenas os benefícios pagos pelo INSS e não incluiu despesas com atendimento de rotina, tratamento de complicações, episódios reacionais, reabilitação, amputações e outras necessidades clínicas, nem benefícios pagos por sistemas previdenciários estaduais e municipais.
O estudo estima um custo médio de aproximadamente US$ 7.758 por beneficiário, considerando apenas os pagamentos previdenciários analisados. Em outros países, pesquisas citadas pelos autores encontraram custos muito inferiores para intervenções de prevenção de incapacidades.
“A hanseníase é também um marcador de desigualdades sociais, territoriais e de gênero — e seu custo econômico mostra que o preço do diagnóstico tardio é pago tanto pelas pessoas afetadas quanto por toda a sociedade”, alerta o presidente da SBH.
*Artigo: https://www.frontiersin.org/journals/public-health/articles/10.3389/fpubh.2026.1672733/full
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